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A história de vida e o ensino do futsal

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

 Em 1996, incentivado pelo meu professor João Bosco da Silva, hoje cidadão honorário em Barretos (SP), escrevi Futsal: metodologia da participação. Esse livro, resumidamente, retratou minha visão e inquietude de professor e treinador de categorias menores. Naquela época, meu dia se iniciava com as aulas de futsal na escolinha da Viação Garcia, passando pelas aulas de futsal no Colégio Máxi, culminando com os treinos de futsal no Iate Clube. Não sei como pude dar conta disso, mas dava aulas, treinos e competia futsal todos os dias o dia todo junto a jovens dos seis aos dezenove anos.

 Defendi na oportunidade, entre outras coisas, que a pedagogia do futsal não podia ser refém dos manuais técnicos de como ensinar esse esporte. Ao contrário disso, devia prestar-se a fomentar uma prática alicerçada no jogo, na brincadeira, trazendo para a aula aquilo que a rua tinha de melhor: o clima do possível, da liberdade, da criatividade. Enfim, o jogo no lugar do exercício.

 Por que fiz isso? Muito mais pela minha história de vida do que pelo o que havia aprendido no curso de educação física e nas leituras sobre o tema. Ora, aprendera a jogar jogando, entre iguais, no toma lá da cá. E foi exatamente isso, essa herança, que me levou a ingressar numa boa equipe de futsal, aos 11 anos de idade e, depois disso, a ter seguido em frente, para o futebol, para exigências maiores.

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Na vida que segue, ao formar-me professor, nunca esqueci a lição de que "bola" a gente aprende jogando. Logo, na hora de ensinar, ensino para os meus alunos, até hoje, o que foi bom para mim.

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 Na vida que segue, ao formar-me professor, nunca esqueci a lição de que "bola" a gente aprende jogando. Logo, na hora de ensinar, ensino para os meus alunos, até hoje, o que foi bom para mim.

 A minha história não é diferente da de muita gente que ensina futsal: boa parte aprendeu a jogar jogando, pois não havia as famigeradas escolinhas. Tanto mais verdadeiro quanto mais velho o professor. Alguns, inclusive, viraram, igualmente, atletas de futebol ou de futsal. Entretanto, diferentemente de mim e de outros profissionais que conheço, no momento que passam a ensinar, a serem professores, colocam as crianças em fila para repetir e memorizar técnicas. Que discrepância!

 Isso, inclusive, foi tema de mestrado na Unicamp (“O futebol que se aprende e o futebol que se ensina”), na qual o professor Alcides Sgaglia, mostrou ex-jogadores de futebol que o aprenderam jogando o ensinarem pelo método tradicional, ou seja, de modo completamente distinto.

 Por que boa parte dos professores age assim? Por que troca o saber real, que vivenciou e aprendeu por certo tipo de saber acadêmico, míope, enlatado? Nada deveria ser mais forte, arraigado em cada um de nós, do que aquilo que, de fato, vivenciamos e que nos trouxe segurança e conhecimento.

 Por exemplo, tenho tido o privilégio de ver meu filho de seis anos de idade aprender a jogar bola com meu pai, de 70 anos, do mesmo jeito que eu aprendi há mais de 35 anos atrás. Meu pai não fez educação física, não estudou metodologia do ensino, mas sabe que o futebol é um jogo e que precisa ser jogado para ser aprendido. Meu pai passa para o neto o que lhe fez bem. Meu pai é melhor professor do que muitos jovens recém-formados em educação física ou em esporte. Suas brincadeiras preferidas são golzinho, chute ao gol e bobinho.

 Hoje, 18 anos depois do meu primeiro livro, percebo que escrevo e falo para as pessoas, essencialmente, as mesmas coisas: “Leve para a aula o jogo, a brincadeira, o clima de liberdade, o risco. Sem isso, nada de aprender bem futsal”. Isso não é bom. Evidencia que pouca coisa mudou de lá para cá na cabeça de boa parte dos professores e, consequentemente, na metodologia do ensino que aqueles empregam. Entretanto, sou otimista, e sei que muitos outros professores têm se preocupado em ensinar futsal a partir do jogo, o melhor meio para ensiná-lo.

 Se o professor não teve acesso aos livros que ensinam a jogar futsal, deveria olhar para trás, para a história de vida. Isso, em alguns, casos, seria o suficiente para ensinar bem futsal, o que significa ensiná-lo pelo jogo.


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