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O dom é um mito

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

Parece-me ainda pouco consensual entre professores e treinadores de futsal e de futebol a ideia de que o talento seria o resultado de um longo e qualitativo processo de treino. Perdura, modo geral, exatamente o contrário, isto é, de que o talento tem um dom.

 O conceito de dom teria a ver com algum tipo de herança que nasceria com o jogador; algum atributo (divino e/ou genético). Expressaria, portanto, a crença de que alguns poucos jogadores nasceriam com habilidades excepcionais e, por isso, seriam diferenciados e geniais.

No fundo, embora discorde, eu até entendo isso. Como, afinal, explicar o talento de alguém como Neymar? Como explicar o abismo que o separa de um atacante comum? De onde viria toda aquela inventividade a não ser de algo imbutido em seus genes ou soprado por Deus?

Mas a crença é fantasiosa. Por quê? Porque, ao se fazer isso, se desconsidera a história de vida dos jogadores, o percurso, as experiências, ou seja, a trajetória que lhes é singular, própria. E é exatamente isso, segundo os especialsitas, que explicaria o talento, a capacidade de cada um.

 Para ratificar isso, recorrerei a alguns autores.

Inicio com os professores Ramon Cosenza e Leonor Guerra, autores de um livro intitulado “Neurociência e educação: como o cérebro aprende” (Artmed). Nesse livro, entre tantas outras coisas, os professores explicam que “A interação com o ambiente é importante porque é ela que confirmará ou induzirá a formação de conexões nervosas e, portanto, a aprendizagem ou o aparecimento de novos comportamentos que delas decorrem”. Evidentemente que o livro explica a aprendizagem do ponto de vista biológico. Mas não se assuste! Leia com atenção: é a interação com o ambiente o que confirmará ou induzirá a aprendizagem! Mais precisamente, a interação dos genes (sujeito) com o ambiente (pessoas, cenários, distâncias, pisos, metas, bolas). Daí a importância do treino e, em particular, da qualidade do treino.

 

 Para reforçar o fato de que o talento é o resultado de um processo e refutar a crença de que é o talento que desencadeia o processo, citarei alguns conceitos de outro autor e livro: David Shenk, no livro “O gênio em todos nós” (Editora Zahar). Leia com atenção três de suas premissas:

1a “Não é que os genes não contam!”

É que eles, sozinhos, sem interagir com o ambiente, nada podem. Leia a afirmação de Shenk: “Sozinhos, os genes não nos tornam inteligentes, burros, atrevidos, educados, deprimidos, alegres, talentosos ou surdos para música, atléticos, desastrados, eruditos ou interessados”;

2a “O que conta é a interação complexa entre genes e ambiente!”

É essa que faz “nascer” algumas daquelas características (inteligente, alegre, atlético, interessado, burro, deprimido, desastrado). O autor explica que “Todos os dias, de todas as formas possíveis, você ajuda a determinar quais genes serão ativados. Sua vida interage com os genes”;

3a “O craque não nasce programado”

 “Em vez de fornecer instruções predeterminadas sobre como um traço deve se manifestar, esse processo de interação gene-ambiente gera uma rota de desenvolvimento específica para cada indivíduo”. Leia com atenção: “rota de desenvolvimento espefícia”! Isso “mataria” a ideia ingênua de que foi fácil para um menino como Falcão se transformar num jogador como Falcão. O fato é que “Não existe nenhuma base genética assentada antes que o meio ambiente entre em cena; pelo contrário, os genes se manifestam estritamente de acordo com o ambiente que os cerca. Tudo o que somos, desde o primeiro instante de concepção, é resultado desse processo”.

Como a “notícia” de que é a interação do jogador com o ambiente que gera o talento deveria deixar todos os que trabalham na formação de jogadores? Contentes e ocupados. Contentes porque têm importância no processo de formação do jogador na medida em que planejam o ambiente (os tipos de interação). Ocupados porque têm de estudar para criar esse ambiente; programar a qualidade das relações estabelecidas naquele.

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