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Heranças competitivas 16

O menino queria ser goleiro. O pai incentivou. Pensou, mas não disse, que "o caminho seria árduo". "Só joga um goleiro". "Haveria muito o que aprender". "Há técnicas diferentes dos demais jogadores". "Meu filho ficará sob constante pressão da torcida". Seu alento foi pensar que o menino poderia, um dia, "salvar a equipe", "defender o pênalti daquela final", "ser o ídolo de uma enorme torcida". A vida seguiu. O esporte sempre será um bom caminho a trilhar.

O menino iniciou-se cedo no futsal. Dedicou-se. Encontrou um time. Confiou-se ao treinador. Viveu boa parte da sua infância debaixo da baliza. Aprendeu a espalmar, a encaixar, a lançar, a jogar com os pés, a sair do gol, mostrou-se intrépido e ativo

Ao despedir-se da infância, o menino fixou-se como titular nas categorias mais competitivas. Enfrentou a "barreira de proficiência" da Sub-13 e da 15. Vivenciava a Sub-17. Longos anos de treinamento, de competição e de aprendizagem. A gestação do craque é mesmo longa. Estava, portanto, no "meio do caminho".

Aventurou-se no futebol, mas "não deu liga". O futebol era mais amplo, mas ainda mais competitivo. Olhou para frente e, infelizmente, percebeu que o futsal da sua cidade lhe oferecia pouco. Apenas um time adulto! E, ainda mais, formado por jogadores experientes, profissionais contratados. Isso era sinal de poucas oportunidades. Como avançar? Restava ainda uma chance: uma seleção para jovens de 17 e 18 anos que era convocada para representar a cidade, anualmente, em um torneio estadual. "Goleiro da seleção", pensou. Seus olhos brilharam. "Tinha de chegar lá", pensou. O coração aqueceu.

Fez naquele ano seu mais belo campeonato. Chamou a atenção de todos. Afinal, queria jogar pela cidade. Pela seleção. Soube que os convocados receberiam uma ajuda de custo mensal em dinheiro. Pela primeira vez receberia algo pelo que, de fato, queria ser pago por toda a vida.

Saiu a convocação e o menino constava na lista entre os três goleiros. Naquele dia sentiu-se como o jogador que é convocado para a Copa do Mundo. Sua primeira convocação. Estava entre os melhores. Seu nome saiu no jornal e no site da Liga. Já não era um anônimo.

Em casa foi recebido com alegria. O pai olhou-o nos olhos e disse: "Parabéns, filho!". A mãe abraçou-o demoradamente. Pouco disse, mas seus olhos lacrimejaram. Naquele noite, demorou a pegar no sono pensando em todas as defesas que faria por sua cidade. Viu-se abraçado com os colegas pelos gols do time. Sentiu-se reconfortado. Ao adormecer, balbuciou: "Obrigado, Senhor!".

No dia seguinte, soube pelos colegas nas redes sociais que o treinador da seleção não seria nenhum dos que dirigiam os times da sua categoria. Seria outro, que já havia treinado a seleção adulta e algumas equipes de jogadores profissionais. Soube, também, que alguns dos jogadores que aquele técnico treinou nas categorias menores chegaram à Liga Futsal. A expectativa do menino aumentou. "Será que um dia chegarei na Liga também?", pensou.

Naquele mesmo dia, de noite, outra notícia chegou, mas dessa vez o atingiu: seu treinador lhe comunicou que não seria liberado para treinar na seleção. Seu coração disparou. Perguntou o motivo e o treinador argumentou que discordava da atitude do presidente da Liga de escolher um técnico de fora para treinar a seleção, isto é, um técnico que não treinava os times daquela categoria. O menino pensou, mas não disse, "O que eu tenho a ver com isso?". O treinador reportou que no lugar de o liberar para jogar pela sua cidade, o ofereceria para uma cidade menor, pela qual poderia disputar o torneio, ainda que em uma divisão inferior. O menino pensou, mas não disse, "Mas quero jogar pela minha cidade; o time daqui é mais forte e joga a divisão principal. Jogaria, ainda, com meus colegas. Seria perfeito!". O treinador ainda o fez acreditar que somente chegara até ali por causa dos treinos, tênis e passes que recebera ao longo desses anos. O menino pensou, mas não disse, "Mas você está me prejudicando! Eu não te devo nada. Dediquei-me todo esse tempo. Ralei pra caramba. O mínimo que merecia era certa condição para treinar e jogar. Por que você não comemora minha convocação no lugar de ficar com dor de cotovelo por não ter sido escolhido como treinador da seleção?". A vida seguiu.

O menino se deixou diminuir. Foi enredado. Voltou para casa cabisbaixo e comunicou o acontecido aos pais. Estes, no lugar de reivindicarem explicações plausíveis do treinador, resignaram-se. Ficaram com receio de que o menino não tivesse onde treinar quando acabasse a seleção. Melhor seria, então, não peitar o treinador que o "ajudara" nesses anos todos com os passes de ônibus e os tênis.

O técnico da seleção convocou outro menino. O novo goleiro foi liberado pelo seu clube para treinar. Começou como reserva da equipe, mas ganhou uma chance entre os titulares durante a competição. Fechou o gol e não saiu mais do time! Outro técnico, da seleção estadual, viu seu desempenho e o convocou para um campeonato brasileiro disputado no ano seguinte. O goleiro foi titular também da seleção estadual. Isso chamou a atenção de outros técnicos, agora de equipes principais, e novas experiências foram sendo acumuladas. O goleiro que não seria convocado triunfou e seguiu. Poderia ter sido o anterior. Nunca se saberá. A vida seguiu.

Ninguém devia ser pequeno ao ponto de enredar um menino de 17 anos e impedir que participasse de uma seleção da sua categoria por motivos mesquinhos e obscuros. Ninguém se torna mais humano desumanizando as relações. Participar de uma seleção faz bem "pra alma"; pode ser a da rua, a do colégio, a da empresa. Só não sabe disso quem não participou disso ou quem age com má-fé. Além disso, é uma ótima oportunidade de ser visto por quem pode oferecer mais. Boas oportunidades levam a melhores oportunidades. Ou não?

O menino barrado pelo treinador precisa ter aprendido que não basta pensar. É preciso falar. Impor-se. Argumentar. Assumir as rédeas da própria vida, pois esta é pra valer. A vida é pra valer e as oportunidades são raras. É preciso aproveitá-las quando surgem. O menino precisa ter sacado que há momentos que exigem uma postura mais decisiva e autônoma para afastar os "corvos" do caminho. Essa gente cínica e venal, que não é feliz e não quer que os outros sejam. É preciso estar atento ao caráter do treinador. Se for mau caráter, é preciso dispensá-lo e jogar em outro lugar.

Nenhum jovem deve favores ao seu treinador pelos anos que jogou na sua equipe. Essa ideia é falsa. O treinador que usa desse expediente é desleal. Isso é chantagem emocional. Só funciona contra alguém ainda em formação. É uma atitude pérfida. Bons treinadores, ao contrário, treinam e educam os jovens para que que vivam bem além das quatro linhas da sua quadra; para que saiam do anonimato e conquistem cada vez mais autonomia para decidir bem na sua vida esportiva e na sua vida social. Ou isso, ou nada.

Assinatura Wilton Santana
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2 comentário(s) cadastrado(s)

comecei a ler seus artigos hoje e estou muito feliz, por poder contar com essas ferramentas que com certeza enriquecerão nosso trabalho.

Franklin

Professor Wilton, Como sempre muito bom o artigo. Meus parabens!

Everson Maciel

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