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O lado mais real do futebol

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

Encontrei-me, nesses dias, com um camarada da época de futebol, ex-jogador nas décadas de 1980 e 90. Hoje, ele toca uma escolinha. Nesta, procura ensinar à garotada o que sabe sobre futebol. Ele me disse que se preocupa com o comportamento dos garotos, isto é, com as atitudes dentro e fora de campo. É preciso, segundo ele, “ter a cabeça no lugar” e aprender a lidar, desde cedo, com a “trairagem” do futebol.

É um trabalho árduo o dele, pois há muita concorrência quando se trata de revelar garotos. Por isso, a fim de se diferenciar, mantém parcerias com centros de treinamento mais abastados. Os centros que pertencem aos empresários; os donos disso e daquilo. Esses sujeitos mandam no mercado de formação de jogadores. São eles que têm o dinheiro para pagar, quase sempre muito mal, os profissionais que treinam e preparam os jovens.

Enfim, meu camarada contou que essas parcerias representam o único jeito de sobreviver nesse meio, pois serão os centros de treinamento que darão visibilidade às revelações da sua escolinha. “É o modo que se tem de ajudar os meninos a parar num time grande e de a gente sobreviver, de entrar uma grana”.

Em meio à conversa, me chamou a atenção que a ida para um centro desses não pode ser demorada. Segundo ele, “quanto antes, melhor, pois hoje em dia se o cara não vingar ali, perto dos 17, 18 anos, não vira mais. É considerado ‘velho’”. Aí me lembrei dos “gatos” no futebol - garotos que despertam o interesse por serem mais fortes e/ou melhores que outros jogadores da categoria, mas que têm a idade adulterada. Tudo a ver. O “gato” é um fruto da ansiedade do mercado. O mercado dos empresários. Embora a bomba vá estourar na mão de um desconhecido, fruto da mesma ansiedade.

Ouvindo-o, me lembrei das discussões sobre pedagogia do esporte, treinamento e áreas afins que tanto prezamos nas universidades e que são absolutamente legítimas, mas que não chegaram ao meu camarada. Ele faz o que precisa fazer para sobreviver, o que o seu capital simbólico permite: abrir uma escolinha, colocar um menino no centro de treinamento do empresário o quanto antes para que aquele, o quanto antes, se tudo der certo, seja comercializado com um time grande daqui ou do exterior e, por fim, “entre uma grana”.

É o outro lado do futebol. O lado mais real, diria. O lado de quem não tem tempo para fazer teoria. Tem tempo apenas para sobreviver.

Este texto está também disponível em podcast!

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2 comentário(s) cadastrado(s)

Parabéns Cleusio pela preocupação com a capacitação acadêmica e sucesso no seu trabalho.

Wilton

Caro Mestre, este texto é a pura verdade, pois, sou ex-atleta profissional que pós carreira segui esse mesmo caminho, mas com um porem,decidi mudar e fui estudar me graduei em educação fisica com muito esforço e graças a Deus,a meus pais e minha esposa e filhos, hoje sou efetivo como educador fisico no setor da saude(CAPS ad), aqui da cidade em que moro(Capivari-SP. Muitos amigos vivem assim

Cleusio

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