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Como treinar a técnica na iniciação?

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

Como sou crítico do método tradicional de ensino do futsal, que investe na repetição gestual de técnicas separadas de um contexto de tomada de decisão, muita gente me questiona sobre como treinar as habilidades de outro jeito. Ou seja: o que colocar no lugar de tarefas que põem crianças umas de frente para as outras passando a bola? O que colocar no lugar de tarefas que exigem das crianças conduzirem a bola entre cones para chutar ao gol? O que colocar no lugar de tarefas que estabelecem que as crianças têm de conduzir a bola até o fim da quadra e retornar ao lugar de saída? Não tem segredo.

Para tanto, bastaria colocar algum tipo de problema cognitivo associado ao gesto técnico de passar, conduzir, chutar etc. Não precisa ser nada complicado! Esse problema exigirá da criança realizar ajustes no seu movimento, que é o que mais interessa. A pedagogia da rua faz isso muito bem há muito tempo a partir de poucas e boas brincadeiras. As escolinhas, não! Elas optaram, de modo geral, pelo exercício, pelo estereótipo do movimento: todos fazendo a mesma coisa. O problema disso é que sem a necessidade de ajustes no movimento, no gesto, sem jogadores habilidosos!

Antes de te mostrar alguns exemplos de atividades precisaria salientar que jogador habilidoso no futsal é o que decide bem e dá conta disso. Não se joga apenas com os pés (técnica), mas também com a cabeça (tática); não apenas com a cabeça (tática), mas também com os pés (técnica). A dimensão só pode ser uma: técnico-tática ou tático-técnica.

O gatilho para disparar o processo que culminará com o jogador habilidoso é proporcionar no treino, desde cedo, atividades que exijam da criança pensar (perceber,analisar, escolher) e fazer (executar). Não se deveria dar a ela contextos nos quais as decisões já foram tomadas. No lugar disso, entraria a busca por soluções.

Treino “produtivo” para crianças tem de conter certa “pressão”. O que seria isso? Por exemplo, na exercitação, se demorar em perceber o espaço a ser ocupado, alguém já percebeu e o ocupou! Se não estiver concentrado para recebr a bola, o time perdeu a posse! Essa pressão nas atividades é imprescindível para formar jogadores habilidosos/inteligentes ou inteligente/habilidosos.

Como esse tipo de treinamento começa cedo, é necessário ser realizado com baixa complexidade, ou seja, muitas vezes com menos jogadores, em espaços menores, com regras pouco complexas, possíveis e, ainda, com pontuais provocações.

Acompanhe quatro formas jogadas que exercitam, simultaneamente, habilidades técnicas como a condução e o passe e capacidades perceptivo-decisórias, como perceber, analisar, decidir.

Jogo 1

Formação: cinco crianças posicionadas em círculo, com bola, próximas de um cone. No interior da roda, outra criança com bola.

Regras: não se pode falar nesse jogo! Quem está no exterior tem de trocar de lugar entre si, sem poder voltar de onde saiu; quando isso ocorrer, quem está no interior procura ocupar um dos cones. Como tem mais crianças do que cones, alguém ficará novamente no centro. Variação na habilidade: alternar o pé de condução.

Jogo 2

Formação: crianças posicionadas aleatoriamente em meia-quadra. Uma crianças sem bola e as demais com bola.

Regras: no primeiro sinal do professor as crianças conduzem a bola por onde quiserem; no segundo sinal deverão parar a sua bola e procurar outra. Neste momento, a criança sem bola procurará conquistar uma. Como tem mais crianças do que bolas, alguém ficará sem bola. Variação: alternar o pé de condução.

Jogo 3

Formação: 12 crianças posicionadas aleatoriamente nas áreas de meta, cada qual com uma bola. Diante de si oito cones espalhados, portanto, soma inferior ao número de crianças.

Regras: no primeiro sinal do professor as crianças conduzirão a bola na área, sem perderem seu controle. No segundo sinal levarão a bola até os cones postos na meia-quadra de ataque ou sobre a linha central. Como tem mais crianças do que cones e nem todos podem ser conquistados, algumas ficarão sem cone. Vence quem conquistar mais cones. Variação: alternar o pé de condução. Variação na regra: posicionar, em cada área, metade dos jogadores de cada time.

Jogo 4

Formação: crianças posicionadas em círculo de posse de uma bola. Dentro do círculo uma dupla também com uma bola.

Regras: as crianças de fora do círculo trocam a bola entre si e tentam, com a sua bola, acertar a que está sobre controle da dupla de dentro do círculo. Porém, jogam a dois toques e somente podem chutar de primeira para acertar. Quando alguém acertar, quem acertou e quem preparou a bola ganham o direito de trocar de lugar com a dupla do interior. A dupla que está dentro do círculo também joga a dois toques.

Por último: não mencionei a faixa etária na qual poderiam ser aplicadas essas formas jogadas. Fiz isso propositalmente. O fato é que o treinador/professor deverá considerar a capacidade de resposta da criança para definir o desenho didático (regras, espaço, número de jogadores, constrangimentos) das tarefas.

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1 comentário(s) cadastrado(s)

Concordo Wilton, é preciso reconhecer que conservar a dimensão tática no treino técnico, significa dizer que todo jogador é não apenas ator (repetição/reprodução), mas também autor, capaz de criação/escolha/decisão conforme a realidade do jogo exige.

Gustavo Barbosa

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