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Um treinador para além das quatro linhas

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

 Michael Lewis é um renomado jornalista e escritor americano, autor de um livro chamado “Treinador: lições sobre o jogo da vida” (Editora Sextante). Trata-se de uma obra oportuna para os treinadores de jovens. Por quê? Em virtude de evidenciar a influência, nesse caso, positiva, que o treinador pode exercer sobre crianças e adolescentes em demais esferas da vida, para além, evidentemente, da esportiva. Entendamos isso um pouco.

 Lewis conta que foi um “adolescente confuso que não levava os estudos a sério e nem tinha aptidão por esportes”. No entanto, ao deparar-se com o treinador Fitz (Billy Fitzgerald), houve uma transformação “por completo” em sua vida. Isto mesmo: ele considera o treinador o responsável pelo seu novo modo de viver.

Mas o que o jornalista, então menino, aprendera com o treinador que justificaria tal percepção? Leia algumas de suas frases.

Existem professores que têm um dom raro de entrar na mente de uma criança (p.15).

[...] uma coisa chamada garra, e que nós éramos a personificação desse atributo (p.31).

A vida, para ele, tinha menos a ver com troféus do que com sacrifício (p.45).

[...] nunca havia me sentido tão dedicado a um propósito (p.49).

[...] ele se importava com a maneira como jogávamos de um jeito que nunca tinha visto alguém se importar (p.56).

Apenas nós estávamos metidos nessa busca infernal pelo autoaperfeiçoamento (p.70).

Estávamos aprendendo o que significava ficar na linha de tiro (p.72).

 

 Mas quais as lições práticas do treinador que legitimariam as frases do jornalista? Há várias no livro. Acompanhe uma pequena série sobre o “jeito Fitz de ser”:

[...] Fitz se inclinou na minha direção, pôs a mão no meu ombro e, aproximando bem o seu rosto do meu, se mostrou tão calmo como o olho de um furacão. Agora éramos só ele e eu; estávamos nisso juntos. Não sei dizer se foi a sua intenção ou se ele agiu por instinto, mas o recado que efetivamente me passou foi o seguinte: Nesta situação de vida ou morte, não escolheria nenhuma outra pessoa a não ser você. E eu acreditei nele! (p.29)

[...] aquele sujeito incrivelmente persuasivo estava insistindo, apesar de todos os indícios em contrário, que eu poderia ser outro tipo de pessoa: um herói. [...] Atirou a bola do jogo para mim, dizendo que nunca em toda sua vida, vira uma demonstração de coragem como aquela por parte de um arremessador (p.31)

Duas vezes, lá pelo fim do jogo, ele havia gritado para que nossos corredores se esforçassem e deslizassem na lama, e, talvez não vendo nenhum sentido em ficarem todos machucados, ou mesmo sujos, pois o placar era de 15 a 2 para os adversários, eles tinham continuado de pé. Depois, lá pelas 23 horas, nós descemos do ônibus e fomos para o nosso ginásio. Antes que pudéssemos tirar a roupa, Fitz disse: “Vamos lá fora, para os fundos”. Era uma área que mal dava para chamar de campo. A sujeira acumulada estava dura como asfalto e salpicada de cacos de conchas, vidros, tampas de garrafa e sabe lá Deus mais o quê. Fitz fez com que ficássemos em fila atrás da primeira base e explicou que iríamos treinar correr até a terceira. Quando chegássemos lá, deveríamos nos jogar para a base. Segundo ele, isso iria nos ensinar a deslizar e mergulhar quando nos mandasse. Então ele sumiu na escuridão. Alguns momentos depois, ouvimos sua voz, vinda lá de perto da terceira base. Um por um nossos jogadores dispararam. No começo ouve alguns resmungos, mas logo o único som que podia ser ouvido era o de Fitz, de olho nos garotos saindo do meio das sombras e correndo na sua direção, gritando: “Vai fundo!” (p.68).

Ouvimos aquele sujeito porque ele tinha algo a dizer, e só para nós [...] Estava nos ensinando algo muito mais importante, que é como lidar com os dois maiores inimigos do que deve ser uma vida plena: medo e fracasso (p.73).

 Muito emblemáticas as frases. Tendo lido o livro, diria, resumidamente, que as lições que Lewis aprendeu com Fitz ao ponto de o motivarem a publicar foram as seguintes: “é preciso se comprometer com o que se faz”, “o treino exige sacrifício”, “a conquista é por merecimento”, “o privilégio corrompe”, “a confiança deve ser mútua”, “a paixão precisa ser intensa sob qualquer circunstância”. Importantes e generalizáveis lições sobre o jogo da vida; ao mesmo tempo, exigentes e difíceis.

 O fato é que reside nos treinadores (de jovens ou não) uma série de desafios com os quais lidar: como ser ético sem ser moralista?, rigoroso sem ser radical?, sério sem ser mal-humorado?, democrático sem ser permissivo?, firme sem ser rude?, justo sem ser vingativo? É desafio para a vida toda.

 Porém, como saber que se vai bem nessa difícil, mas necessária empreitada de preparar jovens esportistas para o jogo da vida? Quando percebermos, minimamente, que os que estão sob a nossa orientação cresceram (não apenas como jogadores, mas, igualmente, na maneira de encarar as coisas). Na prática, seria testemunhar nossos jovens jogadores se comprometerem, sacrificarem-se, cooperarem, imprimirem intensidade sob qualquer circunstância de jogo, serem avessos a privilégios, abandonarem a arrogância e a prepotência. Longo caminho de aprendizado.

 Por último, atente para o caso do livro: em última análise, Fitz pôde ter o reconhecimento de Lewis porque foi ele mesmo um exemplo de intensidade naquilo que fazia. Seria diferente para qualquer um de nós? Penso que não. O “tom” da música é o maestro quem dá, não? Logo, sem um bom exemplo de treinador, sem jogadores exemplares.  

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