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Consequências de diferentes métodos de ensino

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

De forma sintética, seria possível afirmar que há duas correntes metodológicas clássicas e antagônicas de ensino dos jogos esportivos coletivos, entre eles, o futsal: uma defende que é preciso “aprender para jogar” e outra defende que “jogar se aprende jogando”.

Enquanto a primeira corrente investe grande parte da aula na repetição e memorização de técnicas, levando o aluno a exercitar as habilidades (passe, chute etc.) em contextos estáveis (previsibilidade ambiental), a segunda investe na iniciativa, imaginação e reflexão do aluno a partir de jogos, levando o aluno a lidar com contextos instáveis (imprevisibilidade ambiental) e a compreender princípios do jogo.

 Não fica difícil deduzir que as crianças expostas a contextos problemáticos, que lhes exigirão improvisar, tenderão a serem mais imprevisíveis, inteligentes e criativas do que aquelas expostas aos contextos previsíveis, nos quais, na maior parte do tempo, cumprem tarefas deslocadas do sentido de jogo. Ora, “quem aprende a resolver problemas, aprende a resolver problemas”, enquanto “quem aprende a ser previsível, aprende a ser previsível”.

 Há, inclusive, pesquisas recentes que ratificam isso. Destacaria, por exemplo, a realizada por Pinho e colaboradores (2010), na qual os autores verificaram a influência da aplicação de jogos situacionais de handebol sobre o conhecimento tático processual (CTP) de 35 alunos entre 10 e 12 anos de idade.

             

 

 Bem, antes de tudo, vamos entender o título: os jogos situacionais se propõem a desenvolver a criatividade e a inteligência do aluno; a criatividade tem a ver com o jogador atuar de forma inventiva; a inteligência tem a ver com o jogador escolher a melhor opção entre as disponíveis; o conhecimento tático processual expressa a capacidade de os jogadores saberem “como” e “quando” realizar tarefas complexas, selecionando as ações mais adequadas dependendo da situação de jogo. 

 Na prática, os pesquisadores dividiram os alunos em dois grupos: em um destes (G1) ficaram 17 alunos que tiveram 18 aulas de 35 minutos centradas em jogos situacionais (100% de situações de competição, como por exemplo, 1x1, 2x2, 2x2 +1 etc. e também o jogo coletivo); no outro grupo (G2) ficaram 18 alunos, que foram submetidos a 18 aulas com o mesmo tempo, mas centradas no método misto (parcial + global), isto é, treinamento técnico específico de fundamentos individuais e de combinação de fundamentos (parcial) seguido do jogo coletivo (global). Abra uma gaveta aí no seu cérebro e guarde o seguinte: os autores confrontaram um método centrado na tática, que utiliza de jogos, com outro centrado na técnica, que se utiliza de exercícios, somado ao jogo como um todo!

 Para analisar a influência do método, foi aplicado o teste de CTP – KORA, o qual, mediante análise de vídeo (filmagem do pré-teste e pós-teste), verificou possíveis existências de variações nos níveis de conhecimento tático processual dos dois grupos. De fato, esse teste revelou, por um lado, a capacidade de os alunos sem bola “obterem uma posição ótima para receber a bola” e por outro lado a capacidade de os alunos com bola “perceberem as possibilidades de se chegar ao objetivo; de reconhecer espaços”.

 Pois bem, os alunos treinados a partir de jogos, entre esses, o coletivo, obtiveram escores mais elevados do que os alunos treinados a partir de exercícios seguidos de jogo coletivo em ambas as variáveis, o que fez os autores concluírem que “o método situacional é eficaz na melhoria dos níveis de conhecimento tático processual, enquanto o método analítico, juntamente com o global, não se mostrou eficaz para melhorar os níveis de CTP”.

 Em outras palavras, “quem aprendeu jogando, aprendeu a interpretar as situações de jogo, a dar sentido ao que aconteceu e selecionar melhores soluções para os problemas do jogo, enquanto quem aprendeu a repetir movimentos deslocados do jogo, ainda que tenha participado de coletivos, expressou dificuldade de fazer isso”.

 

 Repito: esse estudo mostra que fazer exercícios seguido de jogo coletivo não ensina a interpretar bem o jogo; não é eficaz para reconhecer as situações de jogo; não ensina a saber como e quando agir quando se tem a bola e quando se está sem esta. Enquanto isso, treinar situações contextualizadas com formações numéricas inferiores à formalidade competitiva (1x1; 2x2 etc.) e também o jogo coletivo (5x5 no caso do futsal), mostra-se mais eficaz para aprender como e quando agir com e sem bola.

 Em tempo, você pode acessar e ler o artigo do estudo que citei neste texto: chama-se “Método situacional e sua influência no conhecimento tático processual de escolares”.

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3 comentário(s) cadastrado(s)

Adoto a proposta da Escola da Bola/IEU (Roth, Kröger e Greco, Benda) a mais de 10 anos no futebol de campo, por isso recomendo não só o método situacional como os demais pilares: Jogos situacionais, capacidades coordenativas, habilidades e JDITC. Dessa forma, meus alunos "jogam para aprender" e os resultados são mesmos diferenciados da metodologia analítica e/ou mista.

Romário Cardoso Costa

Muito bom. Venho trabalhando dessa forma há alguns anos e temos resultados fantásticos, reconhecidos também pelos pais dos nossos alunos.

Eduardo C. Vieira

Muito boa explanação, sobre os métodos de trabalho no futsal. Embora muitos ainda sintam dificuldades para realizar esse tipo de trabalho. Também sigo essa lógica que só quando o aluno/atleta é incentivado a solucionar problemas inerentes do jogo, ele tem maior desenvolvimento técnico/tático do jogo.

Francisco Neto

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