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A técnica "oculta"

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

O gol acrobático de Ibrahimovic diante da seleção inglesa é um dos exemplos que denunciam que os jogadores têm um tipo inusitado de habilidade, composto de gestos muito distantes das receitas técnicas de como se fazer isso e aquilo, tão perseguidas pelos professores de futebol. Trata-se da técnica “oculta”. Aquela que os professores não ensinam e que não está nos livros.

 

A técnica oculta, cheia de ajustes e de improvisos que surpreendem os adversários, seria aprendida ou nasce com a pessoa? Seria aprendida. Quando? Desde cedo. Como? A partir da vivência de situações de jogo sem a interferência do professor.

O fato de o professor não interferir, isto é, passar informações, dizer o que deve ser feito, não diminui sua importância. Mas exige uma mudança de postura: deixa de ser instrutor de técnicas e passa a criar ambientes nos quais se possa aprender a técnica oculta.

Na prática, o professor planeja a atividade na qual a criança aprenderá a técnica oculta, que lhe permitirá ser habilidosa. Ele não ensina, mas planeja o ambiente que possibilitará o aprendizado. Logo, não dá para minimizar sua função pedagógica.

No passado as crianças aprendiam a técnica oculta sem os professores. Como? Jogando entre si. Onde? Na rua, no campinho, no quintal de casa. Nesses locais acessavam esse jeito particular de jogar, que virou marca registrada do jogador brasileiro.

Há vários estudos realizados em universidades brasileiras que mostram que, com o advento das escolinhas, a possibilidade de se aprender a técnica oculta desapareceu. As rotinas de treino das crianças são repetitivas; todas fazem a mesma coisa. Apenas aquilo que o professor manda. Isso é um enorme equívoco! Ninguém ficará habilidoso desse jeito. Habilidoso é o jogador que tem intimidade com a bola e que se ajusta aos imprevistos do jogo; que apresenta novidades.

Para a criança ser habilidosa como o Ibra, o Ronaldinho Gaúcho, o Cristiano Ronaldo, o Messi e o Neymar, o professor terá de criar ambientes que elas tenham liberdade de agir, ou seja, lúdicos. Isso tanto sensibilizaria a criança a agir, a superar-se e, por isso, aprender cada vez mais, como garantiria elevada intimidade com a bola e com o entorno (colegas, adversários...).

Ainda são muitos os professores que criam cenários nos quais as crianças têm de, sobretudo, repetir e memorizar técnicas. Isso, quando feito, não deveria ocupar muito tempo. A preocupação deveria ser outra; recair sobre o que mais importa, ou seja, aprender a jogar.

A repetição e a memorização de técnicas são insuficientes para capacitar o jogador a suprir as exigências do jogo. O jogo é um “senhor” muito mais exigente: ele quer a técnica flexível, aquela que se adapta e se ajusta ao contexto.

A rigor, para aprender esse tipo de técnica não precisaria nem se inscrever numa escolinha. Ela está disponível nos jogos infantis. E estes estão disponíveis na rua e onde houver crianças jogando sem professores. Sem o jogo, sem a técnica flexível.

Se ainda há crianças habilidosas, não é por causa das aulas da escolinha. Tem a ver com o que fazem fora da escolinha. Longe dos professores.

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