Invista na qualidade da informação

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Invista na qualidade da informação

Wilton Santana

 

 

Em virtude das competições, os treinadores são submetidos a constantes avaliações. Há um lado positivo nisto: trabalha-se, de jogo a jogo, atentamente, para se obter um desempenho melhor da equipe. Isso desencadeia algo inevitável: a cada treino, tudo o que se faz interessa. Nada pode ser feito de modo negligente. Por isso, entre outras tantas coisas, é um excepcional exercício para o desenvolvimento diário do treinador e dos jogadores.

Sob essa atmosfera, a da exposição e construção diárias de um modo de jogar da sua equipe, os treinadores não deveriam temer a pressão por resultados, mas a falta de organização, de identidade da equipe, que é construída (ou destruída) no treino. Não há como transferir responsabilidade: se a equipe não se organiza ao longo do processo de treino e, por isso, não enfrenta bem os diferentes momentos do jogo, a falha é do treinador. E não tem essa, por exemplo, de o time ser bom de ataque posicional, mas deficiente de jogo de linha-goleiro (ou vice-versa)! A equipe precisa mostrar competência em todas os momentos do jogo.

Essa questão da organização tem a ver com a relevância da componente tático-estratégica, que expressa o modo como a equipe joga, considerada uma “supra” dimensão dentre as dimensões do rendimento nos jogos esportivos coletivos. Isso não reduz a importância das dimensões condicional, técnica e emocional, mas denuncia que é a tática que as solicita. Significa dizer que o jogador decide para onde correr, decide para quem passar a bola, decide se vai ou não se arriscar. Pense: do que adiantaria jogadores que suportam a demanda física do jogo (dimensão condicional) se não sabem para onde e quando correr (dimensão cognitiva)? Logo, é a informação que controla a energia. Anote aí: ter informação para enfrentar o jogo faz toda a diferença e isso é construído nas práticas de treino, nas análises de jogo, sempre entre o treinador e os jogadores e entre estes, de jogo a jogo.

A qualidade da informação, criada e transformada diariamente entre o treinador e seus jogadores e entre estes, constitui-se fator determinante para que o time “corra certo”, “passe certo”…

Observe que eu não falei do resultado final de jogo (vencer ou perder) como parâmetro para se definir a qualidade do treinador, mas mencionei o desempenho da equipe, sua consistência tática, como se comporta, as informações com que joga.

Ainda que seja plausível o raciocínio de que ter um treinador perspicaz, jogadores inteligentes, certo volume qualitativo de treino e, por isso, ver aumentada a chance de uma performance melhor para a equipe, preciso fazer uma ressalva: mesmo organizada, uma vez exposta ao jogo, ao caos do jogo, a equipe pode perder. Isso não significa que tanto faz perseguir a organização e que se está à deriva, mas que o jogo é subversivo, indomável, um genuíno “cavalo selvagem”.

Para concluir: o treinador consegue planejar e controlar o treino. Nesse sentido, deveria investir tudo na qualidade da informação, criada e transformada diariamente entre aquele e seus jogadores e entre estes. Isso se constitui em fator determinante para que o time “corra certo”, “passe certo”, ou seja, jogue organizado. É uma medida metodológica inteligente para preparar a sua equipe para a subversão do jogo.

Wilton é doutor em educação física (Unicamp) e foi campeão paulista, em 2017, dirigindo a Sub-20  Corinthians.

3 Comentários

  1. Janio silva disse:

    Excelente professor. O contexto informação é realmente fundamental. Com a leitura pude perceber algumas coisas que certamente irei por em prática. Abraços

    Janio Silva
    Professor de educação física
    Técnico da equipe HMQ Futsal (Piauí)

  2. […] treinador precisa planejar o treino, intervir no “aqui e agora”, investir na qualidade da informação, criar as regularidades táticas que pretende ver na sua equipe. Mas o jogo se dá na interface […]